19 Mar 2015

A figura da semana - JOSÉ ÁGUAS - 14 Out 1950



    Não será temerário afirmar haver nascido um “jogador de futebol” de nome José Pinto de Carvalho Santos Águas, nascido em 9 de Novembro de 1930, portanto, ainda muito novo, vai fazer agora vinte anos. Trata-se de um elemento que o Benfica descobriu na sua recente digressão a terras de África, agora transferido para o clube. José Águas  jogava pelo Lusitano (do Lobito) mas a sua inclinação era benfiquense.
    Na estreia já o rapaz revelara qualidades, mas agora excedeu toda a ordem de previsões, transformando-se num valor que não pode deixar de ser examinado pela crítica.
   Tinham-nos dito que Águas era um jogador de pouca estatura e força, verificando-se na prática que tal asserção não nos parece inteiramente exacta. Certamente, o jogador foge ao choque, mas tal deve-se mais ao seu processo de jogo do que à míngua de recursos físicos. Trata-se, esta é a verdade, de um elemento de grande intuição, com o condão de transformar os lances difíceis em jogadas fáceis.
   É surpreendente a sua tranquilidade em frente das balizas, na zona onde os jogadores mais audaciosos se atrapalham, tornando natural o aproveitamento das oportunidades que sempre surgem na referida zona. Também o seu poder de remate, quer com qualquer dos pés quer com a cabeça, dá à sua personalidade uma eficiência fora do vulgar. O oitavo golo contra o Braga coroou uma exibição (marcou 4 golos) que abrirá porventura uma carreira brilhante. Talvez haja surgido um novo “astro” no firmamento do futebol português.
   Ainda no último domingo, no Porto, o novo centro-dianteiro do Benfica foi o único que se salvou do naufrágio na linha da frente, mostrando faculdades e espreitando a ocasião de lançar o remate vitorioso. As duas bolas do Benfica foram da sua autoria. 
(Campeonato 50/51, Porto, 5 – Benfica, 2)


Emblema do Lusitano Sports Clube do Lobito

   A 19 de Agosto de 1950, o Sport Lisboa e Benfica, o «Glorioso», deslocou-se à cidade angolana do Lobito, onde, no Campo do Lusitano Sports Clube, defrontou a Selecção do Lobito. Nesse dia, a selecção local cometeu uma proeza inédita, vencendo o grande Benfica por 3-1.
   Ao intervalo registava-se um empate a uma bola, tendo Corona marcado para o Benfica e Lourenço pela selecção do Lobito. No interregno, o inglês Ted Smith, técnico do Benfica, perguntava a toda a gente qual era a idade do avançado-centro, um jovem alto e magro que o tinha impressionado favoravelmente em duas ou três intervenções e que lhe parecera bastante jovem.
   No início do segundo tempo, eram decorridos 30 segundos de jogo, ainda o «mister» não se tinha sentado, quando uma ofensiva do Benfica foi interceptada por Zé da Barca, um
moçambicano radicado no Lobito, que, de imediato, entregou a Amândio Couceiro, o qual faz um passe de «morte» ao jovem Águas - assim se chamava o tal avançado centro - que, com um remate «seco», bate Contreiras, colocando a selecção do Lobito a vencer por 2-1. A multidão não acreditava no que os seus olhos viam, o resultado era desfavorável ao Benfica! A partir daí, o Benfica carregou no acelerador e esperava-se a qualquer o momento o golo do empate; contudo, em mais um ataque rapidíssimo do Benfica, o mesmo Zé da Barca voltou a interceptar a bola, endossando-a a Pavão que, de imediato, a colocou ao alcance de Águas, fazendo este o 3º golo e, assim, «matando» o jogo. Desmoralizado e com um resultado desfavorável de 3-1, o Benfica baixou os braços à espera do apito que colocasse ponto final naquele «calvário».”
Extraído do Jornal dos Leitores - Expresso, de 9-Nov-2000, de Arlindo Leitão




   Quando chegou a Lisboa, a 18 de Setembro de 1950, poucos seriam capazes de adivinhar que aquele rapaz bem-parecido, com pinta de actor de cinema, seria, 12 anos mais tarde, o grande José Águas, um dos mais notáveis avançados de sempre do futebol português, reconhecido unanimemente como o melhor cabeceador que os nossos estádios conheceram até hoje.
  A sua estreia, na Tapadinha, uma semana depois de ter desembarcado, constituiu enorme desilusão. Desenquadrado da equipa, impiedosamente marcado pelos defesas adversários (Armindo e Baptista), o novo ponta-de-lança desiludiu. Quem havia de dizer que aquilo era apenas o mau início de uma carreira fulgurante?
  José Águas rompeu com o conceito em vigor na altura quanto ao que é e como devia ser um avançado-centro. De um dia para o outro o futebol português passou a ter como referência um jogador de elegância máxima, frio, racional nos esforços, com requinte no modo como tratava a bola e possuidor de um jogo de cabeça único. 
   Já com a braçadeira de capitão e senhor do estatuto de melhor marcador encarnado de todos os tempos — que só muito mais tarde perdeu para Eusébio —, Águas entrou na história como o primeiro português a sentir o peso da Taça dos Campeões Europeus. E sentiu-o por duas vezes. 
Ao cabo de uma vida inteira a marcar golos, a sua imagem erguendo o troféu conquistado ao Real Madrid, em 1962, ficará para sempre como a mais emblemática. Um momento de felicidade suprema que resume 12 anos fantásticos ao serviço do Benfica.
Jornal A Bola


9 Nov 2013

Duelo de capitães: e agora, José?

 Em Outubro de 1958 o nosso pai iniciava a sua 9ª época na frente do ataque do Benfica num apuro de forma notável, «igual ao seu melhor», depois de um período de descrença que muitos julgaram irremediável. Chegara até a pôr-se a questão de escolher um sucessor para o comando do ataque rubro! Mas qual quê!...  com 13 golos marcados em nove jogos (média de 1,4), seguia lançado na frente dos marcadores, a caminho da sua terceira Bola de Prata. A inclusão na equipa de dois jogadores - Mendes e Chino - excepcionalmente talhados para a luta na grande área, proporcionava-lhe, na qualidade de avançado-centro, mais oportunidades de concretização.
Em resultado disso, foi mais uma vez eleito A Figura da Jornada. Como se escreveu, todos voltavam a «acreditar que o Águas continuaria a ser ele mesmo e ainda por muitos anos. Um rematador terrível, sim, mas também um jogador completo, hábil como poucos, fino a jogar, eficaz, convincente. Quando a bola chega aos seus pés o futebol toma logo outra graça, outro encanto. Águas, o dos pés de oiro e o da Bola de Prata, é, na verdade, uma jóia preciosa do futebol português.»


    Na tarde do dia 7 de Dezembro de 1958, o Benfica recebeu no Estádio da Luz o campeão Sporting, que levou de vencida por um expressivo 4-0.

«Se existia a lenda de que Águas não era um jogador de combate, ela deve ter-se esfumado por completo, a partir de ontem. Os dois golos que marcou e aquele que ofereceu a Mendes, em “bandeja de prata”, após uma jogada magnífica de persistência, de poder e de domínio de bola, são apenas uma pequena parcela da sua excelente exibição. Em tudo e por tudo, provou ser ele, ainda, o melhor avançado-centro do futebol nacional. O avançado-centro benfiquista rematou sempre que se lhe deparou oportunidade. Teve intervenção directa em três golos. No primeiro o mérito da jogada, rematada por Mendes, pertenceu-lhe quase todo. No segundo, confirmou o remate de Coluna, como que a “dizer” que se não fosse golo à primeira, seria à segunda. No quarto tento, de sua autoria, revelou todo o sentido de oportunismo que deve emoldurar o jogo do avançado-centro.»

Uma semana passada sobre o jogo dos 4- 0, os «capitães» Águas e Travaços eram entrevistados em conjunto!... por Carlos Pinhão

    Dois “capitães”, dois Josés, dois dos melhores futebolistas de sempre do futebol português, Águas e Travaços prestaram-se de bom grado a este “desafio” suplementar de se defrontarem na terça-feira, numa espécie de “prolongamento” do sensacional Benfica – Sporting, que começou no domingo e não acabou ainda nem acabará tão cedo, pois continuará a dar margem a acesa discussão e acalorados comentários.
... Acesa e acalorada, apesar de o frio e a chuva ficarem para a história como elementos identificadores deste encontro de domingo. De facto, muito se irá falar “naqueles 4-0 duma tarde em que choveu muito”...
      O primeiro cumprimento de Águas para o seu adversário, ao vê-lo com ar abatido, foi precisamente um caloroso “Anima-te, Zé!”, acompanhado de amigável palmada nas costas.
   Travaços, apesar de lhe ter pertencido a ideia de “jogar em casa” nesta entrevista, a compensar a deslocação dos sportinguistas ao campo do Benfica, não foi muito cordial na recepção àquele “indesejável” visitante que metera dois golos ao Sporting.
E chegou a pedir ao filho:
- Zé António, vai buscar a espingarda!
Águas atemorizou-se:
- Não faças isso, porque ainda te quero meter mais dois golos na segunda volta.
Foi ainda Águas quem continuou no uso da palavra:
- Mas estás mesmo aborrecido? Não tens razão para isso. Fartaste-te de jogar...
 Travaços explicou o seu estado de espírito:
- Preferia jogar menos e ganhar.
E Águas iniciou o duelo de gentilezas:
- Essas coisas acontecem. Já tenho jogado melhor e perdido. Mas, francamente, gostei de te ver...
Travaços pagou-se na mesma moeda:
_ O Benfica está a jogar. Tem uma equipa de peso, principalmente na linha avançada.
E recordou:
- Como são as coisas... Há anos, a equipa do Sporting tinha, normalmente, mais envergadura, mais força, e, no Benfica, havia, porventura, mais habilidade, mas também mais fragilidade. Pelos vistos, as equipas evoluiram ao contrário. Pelo menos, foi o que se viu no domingo.
- Que lhe pareceu o Sporting, Águas?
Pensou duas vezes:
- É evidente que o Sporting não está bem. Não está, pelo menos, tão bem como se deve esperar e exigir ao Sporting. Mas todas as equipas passam por estes períodos, e, no Benfica, quantas vezes não atravessámos também fases como esta e sempre pudemos recuperar. Toca a todos...
Travaços pediu a palavra:
- E a nossa recuperação pode até perfeitamente verificar-se ainda neste campeonato. Assim como o Benfica nos ganhou cinco pontos na primeira volta, por que não a inversa na segunda? Há ainda muito jogo...
Águas confirmou:
- Na verdade, estamos longe de ter o título na mão. Repare que bastou empatarmos em Évora para logo ficar tudo tremido. E nem se pense, por exemplo, que, neste momento, tememos o Sporting menos do que o Belenenses ou o F. C. Porto. Bastava que tivéssemos perdido com o Sporting para que o campeonato, práticamente, tivesse voltado ao princípio. Assim mesmo, ainda não está em meio.
Travaços foi “amigo da onça”:
- E, qualquer dia, o Benfica é capaz de começar a andar para trás. Até pode ser já neste domingo que vem, no Barreiro.
Aguas driblou:
- Domingo, acautelem-se vocês com o Belenenses, que bem podem. No entanto, digo-te já que estou convencido do vosso triunfo. O Sporting não está tão mal como dizem e pode perfeitamente vencer o Belenenses. Pode e deve.
Travaços corroborou:
- Temos de ganhar mesmo. Isto é uma espécie de fatalidade: - Temos de dar o título ao Benfica. Se não for agora, é capaz de ser no ultimo jogo do campeonato, que volta a ser um Belenenses – Sporting, como da outra vez.
Águas emendou:
- Agradece-se a intenção, mas, nessa altura, o Benfica não deve precisar de favores. Para já é que nos dava jeito, realmente. E tenho uma grande fé no Martins, como da tal vez. E recomendou ao Travaços:
- Tu é que podias dizer ao treinador para pôr o Martins a jogar no domingo. É infalível!...
   Decididamente, Águas e Travaços iam depressa de mais e, se não os travássemos, acabavam o campeonato antes de acabarmos a entrevista. Tivemos de impor a nossa “autoridade” para que retrocedessem de novo até ao enlameado Estádio da Luz e Águas foi o primeiro a regressar ao Benfica – Sporting:
- O jogo deixou-me a melhor impressão por todos os motivos: - ganhámos, fiz dois golos e esta foi a minha maior vitória sobre o Sporting; antes, já ganhara, uma vez, por 3-0. No entanto, este jogo também me deixa uma lembrança desagradável, porque sofri uma distensão e não sei se poderei jogar no domingo.
Novamente se gerou controvérsia, porque Travaços duvidou da natureza da lesão do benfiquista:
- Qual distensão! A correr como corrias, como é que podias ter uma distensão?
Águas insistiu:
- O “Pilão” confirma que é distensão. Ainda me dói e não sei mesmo se poderei jogar no domingo.
Mas Travaços manteve-se na sua:
- Só se não jogares é que acredito e, então, acredito também que a vida do Benfica pode mesmo começar a andar para trás já no domingo.
Águas reagiu:
- Não é preciso eu jogar. “Aquilo” já anda sózinho; até a bola já está ensinada.
 ... Assim é que nós os queríamos ver: amigos, amigos, futebol á parte. E, para complicarmos a questão, perguntámos a Águas, como que a querer forçá-lo a uma confidência:
- Mas isso da distensão é mesmo verdade?
Travaços antecipou-se:
- É “fita”!
- “Fita”?... “Fita” fizeste tu, no fim do jogo, a ver se o árbitro expulsava o Alfredo...
Travaços explicou:
- Não digas isso. Ele “deu-me” mesmo; pisou-me...
   Decididamente, tínhamos ido longe de mais e era altura de travarmos os ímpetos. “Apitámos” para o intervalo e o “gong” salvou ambos... E a entrevista. Falou-se de outras coisas. Do tempo. “E esta chuva, hein!...”
    Quando voltámos a conceder a palavra a Travaços, tudo serenara e o sportinguista pôde fazer calmamente o seu depoimento:
- Assim como o Águas encontrou um motivo desagradável no meio de tantas recordações agradáveis que este jogo lhe deixa, também eu posso ainda retirar uma boa impressão de entre tantas negativas. Estas, evidentemente, estão em maioria: primeiro, porque perdemos e porque nos atrasámos na tabela, e, depois, porque é a minha maior derrota sofrida perante o Benfica. Se bem me recordo, esta é até a maior derrota que sofro contra equipas nacionais. Já vêem que tenho motivos mais do que suficientes para estar contrariado.
 - Qual é, então, a boa impressão? – apressámo-nos.
- É uma questão talvez de vaidade ou egoísmo – disse Travaços – mas parece-me que é humano regozijar-me por ter demonstrado, uma vez mais, que ainda estou “vivo”. Mais uma vez fui tido como acabado e de novo pude voltar em boa “forma”, como toda a Crítica assinala. No domingo anterior, por ser contra o Covilhã, ainda se pôs em duvida a minha “forma”, mas, agora, não podia ser mais posto á prova, jogando fora de “casa”, contra um Benfica num grande momento num campo encharcado, que torna o trabalho muito mais esgotante. Se se reconheceu, depois de tudo isto, que o “velhote” ainda foi no fim do encontro que jogou mais, parece-me que tenho direito a uma pontinha de satisfação.
- Apoiado! – secundou Águas com entusiasmo e convicção. E acrescentou: - No ano passado, com vinte e sete anos, também já me chamaram velho, mas, este ano, com vinte e oito, estou novo em folha e reconhece-se que me encontro na minha melhor condição física de sempre. Por acaso, é verdade; sinto-me agora melhor do que quando tinha vinte e poucos anos e, por isso, compreendo perfeitamente que te sintas também em plenas condições (dirigia-se a Travaços, claro) aos trinta e dois anos.
   Voltara  a reinar a boa paz. Oficiais do mesmo ofício, os jogadores de futebol têm problemas comuns e manifestam com frequência uma solidariedade sincera e compreensível.
Estava tudo dito sobre o Benfica – Sporting do ultimo domingo, mas havia ainda outras perguntas  a fazer “para a história dos desafios entre os velhos rivais”.
Para começar, a mesma pergunta para ambos:
- Qual o Benfica – Sporting que lhes deixou melhores recordações?
- Não há Benfica – Sporting como o primeiro – respondeu Travaços – principalmente quando se ganha por 6-1 e nos cabe fazer três golos. Note, no entanto, que essa não foi a minha primeira vitória sobre o Benfica, pois, ainda a jogar pela C. U. F., já uma vez tinha batido o Benfica por 4-1, em jogo para o Campeonato de Lisboa.
José Águas:
- Até aqui, o meu Benfica – Sporting de maior agrado era o da final que vencemos por 5-4. Agora, já nem sei explicar; estes 4-0 souberam-me muito bem e, se ganharmos o campeonato, talvez os eleja para o primeiro lugar.
Agora, e a propósito, uma nova pergunta, mas só para o benfiquista:
- Quanto à “Bola de Prata”...
Não pôde disfarçar um sorriso:
- Sim, não há duvida de que vou bem embalado, mas ainda é muito cedo para deitar foguetes. Ainda há muitos jogos e há muito quem chute. Até mesmo dentro da minha equipa, tenho rivais perigosos.
Uma pergunta indiscreta:
- Isso desagrada-lhe?
Resposta “a cem à hora”:
- Nada disso, pelo contrário. O campeonato do Benfica é muito mais importante do que esse meu campeonato. De resto, essa actual abundancia de chutadores no ataque benfiquista até me tem dado jeito, porque as atenções das defesas contrárias, agora, não convergem especialmente sobre mim e essa dispersão de cuidados concede-me mais folgas. Pelo menos, tem sido assim até aqui.
- Foi assim contra o Sporting? – perguntámos-lhe.
   Insensivelmente, voltáramos de novo ao sensacional encontro da Luz. De resto, não admira; começámos mesmo por dizer que a discussão suscitada por mais este Benfica-Sporting não acabaria tão cedo. E o novo assunto interessava, realmente, discutir. Águas concordou:
- De facto, o respeito que Mendes, por exemplo, incute, e com razão, pode ter-me facilitado a vida. E, em relação á época passada, quer-me parecer que um dos jogadores que mais falta está a fazer ao Sporting é o Osvaldinho. Quando ele jogava recuado, tudo se tornava mais difícil. Pelo menos, quanto a mim, é o tipo de defesa que eu mais temia.
Travaços concordou que o “internacional” brasileiro faz muita falta, lamentando a lesão que o tem mantido afastado, e observou também que todos os avançados benfiquistas estão, de facto, a chutar muito e bem.
- E não há sombra de egoísmo da nossa parte – explicou Águas. – Pelo contrário, até nos contraria a todos, por exemplo, o grande azar que tem perseguido o Chino, pois ainda não conseguiu estrear-se. Ele já diz que dá uma festa, quando fizer um golo, mas nós é que, nessa altura, lhe fazemos a festa a ele.*
- A propósito – disse Travaços – surpreendeu-me agradávelmente a extrema correcção do madeirense, um jogador que gozava de má reputação. No domingo, vi-o até ir repreender o Neto, quando este teve uma atitude impensada para comigo.
    Era altura de terminar. Por mais voltas que déssemos, acabávamos sempre por ir parar ao Benfica-Sporting, o mais aliciante e inesgotável tema do futebol português.

Na semana seguinte, no dia 21 de Dezembro, no jogo C. U. F., 1 – Benfica, 4 Chino marcava o seu primeiro golo pela equipa de honra do Benfica. «No fim do encontro», escrevia o jornalista Cruz dos Santos, «Otto Glória e os demais responsáveis benfiquistas, abraçavam e felicitavam efusivamente o futebolista madeirense, aos quais este correspondia com um sorriso franco, aberto e, vamos lá, até com uma ponta ainda da emoção que revelara, minutos antes, ao ver consumado o seu feito. Todas estas manifestações nos feriram a atenção pelo que evidenciavam de espírito de camaradagem e de solidariedade, mas aquela que mais ainda nos impressionou foi a assumida por José Águas que, surgindo da cabina no momento em que Chino acabara de se afastar, proferiu estas palavras para os demais circunstantes: “Dou-lhes a minha palavra de honra de que senti maior alegria quando o Chino marcou o golo do que se eu tivesse jogado e obtido três golos.”»
A solidariedade do meu pai para com o seu companheiro Chino ficou à vista, em 24 de maio 59 num jogo para aTaça de Portugal em que o jovem companheiro teve o seu dia de glória.. «No Benfica, 4 – Tirsense, 0, Chino fez três golos, beneficiando, para o efeito, da renúncia, do recuo e do companheirismo de Aguas, que, desajudado pelo público, “vingou-se”, ajudando bem o madeirense. No Benfica, o cargo de “capitão” da equipa não foi desempenhado por Águas, mas por Costa Pereira.» Assim se vê o temperamento «impressionável» do meu querido pai...

Entretanto no Livro do Bebé, ficava registado que no dia 28 de Dezembro de 1958 fomos pela primeira vez ao circo, no Coliseu. «Esteve sempre muito séria e sossegada, mas prestando a maior atenção a tudo. Só em casa se animou a contar alguma coisa do muito que viu». Tinha eu dois anos e meio. Na véspera de Natal fui ao cinema pela primeira vez, ao Politeama, ver «A gata borralheira». «Gostou do que viu, adormecendo a meio do espectáculo.»


capítulo 16 do livro 'José Águas, o meu pai herói', de Helena Águas

22 Feb 2013

O charme discreto do avançado

O meu pai nasceu em Luanda no dia 9 de Novembro de 1930, filho de Elisa da Conceição Pinto, nascida no Porto, e de Raúl António Águas, natural de Lisboa. Foi registado na freguesia de Nossa Senhora do Carmo com o nome de José Pinto de Carvalho Santos Águas, mas para todos era o Zeca. A família morava no Lobito. Numa tarde trágica de Junho de 1934 em que se festejava o aniversário da fábrica de açúcar na Catumbela, onde trabalhava, Raúl António Águas excedeu-se no esforço despendido no jogo da corda e viria a morrer dias depois com hemorragias internas. Ganhara o seu lado. Deixou Elisa viúva com cinco filhos pequenos. O Zeca tinha três anos e meio de idade e cedo começou a sentir-se e a dizer-se «o pouca xote»... Elisa foi trabalhar na lavagem da roupa dos navios que ancoravam no porto do Lobito, próximo de casa. A pouco e pouco, com a ajuda das colaboradoras africanas, o negócio foi crescendo. Era «uma boa casa, onde se recebiam hóspedes e se serviam refeições», disse-me o primo Diamantino, filho da tia Maria. Maria do Pilar era a irmã mais velha do meu pai; a seguir, na linha de descendência, Raúl António, depois Aníbal, vítima de meningite aos 14 anos. «Jogava muito melhor do que eu!», dizia o meu pai, que nasceu dois anos depois. Três meses antes da tragédia viera ao mundo a Leonor de Fátima, e, poucos anos mais tarde, Maria de Lurdes, de uma breve ligação amorosa de Elisa, que viria a morrer em 1948, aos 53 anos, de coração cansado. Aos 17 anos, o meu pai «vira» já morrer o pai, o irmão mais próximo e a mãe.

 Já em Lisboa, contava a sua vida: «Perdi o meu pai muito cedo, tinha eu três anos e meio. Chamava-se Raul António Águas e era pugilista amador, mas dos bons, pois dizem-me que se batia, e bem, com estrangeiros.»
Ao contrário do seu pai, que «era forte, dos pesados», o meu pai sempre foi «franzino, embora rijo». Toda a sua inclinação era para correr, saltar e jogar à bola na praia, tanto futebol como voleibol. Também se revelou praticante exímio do pingue-pongue. Anos mais tarde, em Lisboa, vendo-o jogar na secretaria do Benfica, Oliveira Ramos, responsável pela secção de pingue-pongue, convidou-o.
 Aprendi em miúda a jogar com ele, na sala de jogos da antiga sede, na Avenida Gomes Pereira, em Benfica.

 Aos 15 anos, para ajudar a mãe e começar a ter um pouco de independência, o Zeca empregou-se como dactilógrafo no Serviço Ford da Robert Hudson & Sons, Ltd., uma firma comercial do Lobito, que negociava vários artigos, entre os quais automóveis, e passou a jogar futebol pelo grupo da Casa. Cedo o Lusitano do Lobito, onde jogava o irmão Raul, começou a andar atrás dele. «Mas a minha mãe, receosa da minha aparentemente fraca compleição física, não me deixava jogar senão pela Casa, em atenção ao emprego...», explicava numa das entrevistas que foi dando ao longo da vida. E numa das crónicas mais pessoais, das muitas que foi escrevendo para várias publicações desportivas, contou como tudo começara:

 «Eu era um miúdo magro e fracalhote. Morava no Lobito, numa casa pequenina, airosa e bonita, junto à estação do caminho-de-ferro. Os apitos dos comboios foram o acompanhamento musical das lágrimas e das gargalhadas dos meus primeiros tempos de jogador… Por trás da minha casa havia a praia, o mundo em que eu havia de arranjar este sarilho de ser futebolista. Eu gostava muito da minha casa e de um pinheiro muito verde que eu plantara quando era muito mais miúdo ainda e viera há menos tempo de Luanda – a terra em que nasci. Meu pai morrera. Minha mãe criava-me com todo o carinho e eu palmilhava todos os dias o caminho da escola, sacola a tiracolo. Era um aluno aplicado, gostava de estudar! Mas, claro, o recreio, as horas de chilreada, felizes e alegres daqueles tempos, eram a minha “perdição”. E a bola – a mágica bolinha – apareceu. Que tardes no areal da praia! Viram-me mexer na borracha e… nada feito, porque a minha mãe achava-me menino fraco demais para aquelas andanças.»

 Com efeito, o meu pai viria a iniciar-se tarde nas lides futebolísticas e só aos 15 anos a mãe o deixou calçar pela primeira vez umas botas de futebol, altura em que apareceu também a jogar na equipa do Lusitano Sports Clube. Entretanto, o Zeca tinha arranjado outros amores… «Gostava imenso de estar na praia, com a minha irmã e mais três ou quatro raparigas, numa brincadeira de nunca mais acabar. Nasceram-me os primeiros e tímidos pêlos da cara… Arrefecera o meu entusiasmo pela bola. Eu era um grande entusiasta do futebol, mas para ver jogar e só ver, simplesmente…» Ainda que de forma pouco assídua,  continuava a representar a Robert Hudson nos torneios comerciais. O chefe era o vice-presidente do Lusitano Sports Clube e ele «devia» jogar todos os domingos. Mas o Zeca fizera-se «cábula» da bola e, dos dezasseis jogos do campeonato, não alinhava em mais de cinco ou seis. «Às segundas-feiras, o meu chefe ralhava-me – eu faltara mais uma vez! Bem, os jogos pela Casa eram aos sábados e os do Lusitano ao domingo, mas não convinha participar num e noutro, para não abusar do esforço. »

 «Uma vez», conta ele, «aconteceu um episódio curioso. Tinha dois jogos importantes, o da Casa num sábado, e o do Lusitano no dia seguinte. Eu estava indeciso, porque os directores do Lusitano não queriam deixar-me jogar na véspera do desafio que lhes interessava. Para contentar ambas as partes, pedi-lhes para me deixarem jogar só um bocadinho no sábado, saindo logo que estivéssemos a ganhar. Concordaram, mas foram para o campo fiscalizar. Entrei a jogar e marcámos dois golos. Saí, como tinha ficado combinado, mas passado um bocado os meus colegas consentiram o empate. Voltei a entrar e daí a pouco o resultado passou para 3-2. Pedi para sair, e novo empate se registou! Lá tive que entrar outra vez, e então fiquei até ao fim. Acabamos por ganhar, salvo erro, por 4-3.»

 A notícia de que o Benfica – campeão Latino desse ano de 1950 – seguiria viagem até África causara uma onda de entusiasmo na grande massa de simpatizantes que viviam e trabalhavam naquelas distantes paragens. O Zeca ficou radiante porque o Benfica era, desde miúdo, o seu sonho dourado, e ansioso por conhecer pessoalmente os seus ídolos de então: o Rogério, o Azevedo e o “Julinho”. «Quando soube que o Benfica ia a África fiquei contente, claro, mas estava longe de julgar que isso viria modificar a minha vida.» Alguns adeptos ferrenhos do Benfica já tinham escrito para Lisboa, dando conta das qualidades de uma jovem promessa do Lobito, mas a direcção do clube mandara dizer que o assunto seria analisado quando a equipa se deslocasse a África, para então avaliarem as possibilidades do jovem jogador... Até que… o Benfica chegou ao Lobito! «Eu andava triste nessa altura e o sonho que desde muito novo acalentava – visitar Lisboa – fazia-me um “roi-roi” no peito. Fui convocado para fazer parte da selecção do Lobito que ia defrontar o Benfica.
Na primeira parte joguei a avançado-centro e na segunda a extremo esquerdo. A selecção do Lobito ganhou por 3-1 e eu marquei dois golos. Joguei e… agradei». Na entrevista publicada na revista Ídolos do Desporto, em 1956, o meu pai acrescentava pormenores: «Recordo-me perfeitamente do primeiro golo que marquei ao Benfica. Por sinal foi um grande golo, modéstia à parte. Eu estava a jogar a extremo, fugi ao Jacinto para o centro do terreno, recebi a bola pelo ar, parei-a com o peito, “desceu” ao pé direito... – e zás! – o amigo Contreiras nada pôde fazer...». A reportagem acentuava: «O primeiro golo de Águas não enganava ninguém e o treinador Ted Smith não era homem para ignorar um jogador daquele nível. Sim, Ted Smith ficou a olhá-lo como um petiz que cobiça um rebuçado. Um golo assim é tratado de futebol, define a bitola de um jogador!...»
 Vale a pena relembrar aqui «Cabecinha de ouro»*, um texto de Arlindo Leitão, jornalista angolano, sobre esse único jogo em que o Zé Águas defrontou o clube do seu coração. «A 19 de Agosto de 1950, o Benfica, campeão de Portugal e da Taça Latina, foi jogar ao Lobito contra a selecção local e levou as suas estrelas. Foi batido claramente pelos lobitangas, por 3-1. Eduardo Gastão – o Pila – antigo jogador do Portugal de Benguela, conta como tudo aconteceu: “Foi num sábado húmido e frio. Ao intervalo registava-se um empate a um golo. Corona marcou pelo Benfica e Lourenço pela selecção. O inglês Ted Smith, técnico do Benfica, perguntava a toda a gente qual era a idade do avançado local, um jovem alto e magro, que o tinha impressionado durante a primeira parte e que lhe parecia muito jovem. No segundo tempo, aos 30 segundos, ainda o mister não se tinha sentado, quando uma ofensiva do Benfica foi interceptada por Zé da Barca – um moçambicano radicado no Lobito – que de imediato entregou a bola a Amândio Couceiro Este fez um passe de morte para o jovem Águas, assim se chamava o tal jogador, que, com um remate seco, bateu Contreiras, colocando a selecção do Lobito a vencer por 2-1. A jogar a extremo esquerdo, Águas fugiu à “carraça” chamada Jacinto, desmarcou-se para o centro do terreno, recebeu a bola pelo ar, parou-a com o peito, fê-la descer pelo corpo esguio e quando chegou ao pé direito, estalou um tiro de canhão. Contreiras estirou-se todo, mas o remate levava rótulo de golo! A multidão que enchia o estádio Engº Raimundo Serrão não queria acreditar. O Benfica estava a perder! Quando todos esperavam o golo do empate, o mesmo Zé da Barca ganhou a bola, endossou-a a Mena Pavão, que de imediato a colocou ao alcance de Águas, e, este fez o seu segundo golo. “Quando o José Águas marcou o terceiro golo da selecção, os flamingos que estavam no mangal, atrás da baliza onde o sol se põe, assustados com o barulho da multidão, levantaram voo e sobrevoaram o campo, como que a homenagear os jogadores do Lobito e, em particular, o atrevido Águas.»

Sobre esse dia longínquo, escreveria o mesmo Arlindo Leitão em 2000: «Naquela altura, correu o boato de que José Águas só tinha sido titular contra o Benfica porque o habitual jogador, Aníbal Cacongo, tinha ido à caça nesse fim-de-semana. Aníbal Cacongo esteve em minha casa em Dezembro de 1998. Aproveitei para lhe perguntar onde estava a verdade. A sua resposta diz tudo: «Quando o Zé, em 1948, apareceu no Lusitano, já era melhor que eu. Tinha um futebol fino, diferente, tratava a bola por tu e era exímio no jogo de cabeça. Podes desmentir isso, nem sequer fui convocado. Continua Leitão: «Para nós, que nascemos em finais da década de 40, a maior referência futebolística da cidade que nos viu nascer era o cabecinha de ouro. Todos queríamos ser o Águas.»
* «Cabecinha de ouro”», texto publicado por Arlindo Leitão em Outubro de 2001, constituiu um precioso auxílio na elaboração deste trabalho. Tal como uma entrevista editada na Crónica Desportiva em Junho de 1957. A seguir ao jogo, o meu pai encontrou-se com os elementos benfiquistas na sede do Lusitano, e foi convidado a ir visitá-los ao hotel, na companhia do seu amigo Nuno Madeira. «Apresentaram-me ao treinador Ted Smith, que me felicitou pelo primeiro golo... E o assunto ficou logo mais ou menos arrumado. Falei com os meus irmãos e chegou-se à conclusão que eu, com quase 20 anos, podia muito bem tentar a sorte.» (Antes de vir para o Benfica, o meu pai estivera mais ou menos comprometido com o F. C. Porto, mas foi guardando o contrato na gaveta, sempre esperançado no Benfica. Era uma questão de inclinação, que já vinha de família...) Dias depois, quando a caravana benfiquista deixou o Lobito, levava mais um elemento. Um novo jogador a quem o gigante louro oferecera não só um lugar na equipa mas o seu casaco de benfiquista. Ted Smith, o atlético treinador inglês, tomou a iniciativa de lhe emprestar o seu próprio casaco, igual ao dos jogadores. O meu pai vestiu-o, ainda que soubesse que ficava a «nadar» dentro dele. Foi então que ele sentiu – tal como se tivesse envergado a sua primeira camisola encarnada – que pertencia já ao Benfica, ao clube da sua paixão. Integrado na embaixada dos campeões nacionais e latinos, sentindo à sua volta o calor de uma instintiva simpatia, o Zeca sentia-se «Benfica» dos pés à cabeça. O seu corpo delgado (embora mais vigoroso do que poderia depreender-se da sua aparência quase franzina), ficava a dançar dentro da vestimenta vermelha que o possante inglês lhe cedera. Todos riram perante o espectáculo quase grotesco daquele jovem envergando um casaco que lhe ficava larguíssimo. Ele próprio riu também, porque via os outros rir e não queria que pensassem que «afinava» com a risota. Mas lá no fundo da alma, sem que os outros se apercebessem, despertara um sentimento novo, a secreta alegria de alguém que vê satisfeito um sonho bonito. – Sou jogador do Benfica! Era espantoso como aquele grande casaco o impressionava tanto. Outros jogadores ter-se-ão impressionado ao vestir pela primeira vez a camisola do clube da sua paixão. Com o Zé Águas sucedera algo diferente. Desde aquele dia ele fazia parte da caravana benfiquista em digressão por África. Não tinha ainda feito qualquer jogo, mas todos acharam que, fazendo ele parte, daí em diante, da equipa benfiquista, devia envergar o uniforme do clube – casaco vermelho, com o emblema do clube ao lado esquerdo, e calça cinzenta. Foi preciso devolver o casaco ao seu dono e arranjar outro que lhe servisse melhor. A impressão, essa permaneceu viva.

 «Pediram-me para acompanhar a equipa no resto da digressão pela Província de Angola, solicitei uma licença no emprego e lá segui, estreando-me com a camisola encarnada em Sá da Bandeira, onde marquei três golos.» A primeira viagem – de avião para Moçâmedes – foi um verdadeiro suplício. Quase todos enjoaram, entre eles o próprio Águas. Ted Smith decidiu poupá-lo e deixou-o de fora da convocatória, só o pondo a jogar, dias mais tarde, em Sá da Bandeira. Com mal disfarçada emoção, o Zeca vestiu a camisola encarnada dos seus sonhos e assinalou condignamente essa honraria, marcando três dos sete golos que o Benfica obteve na tarde de 27 de Agosto de 1950, contra o colectivo local. Aliás, entrou a 25 minutos do fim e apontou três golos. Foi obra! Fez mais dois golos em Silva Porto e um na Bela Vista. «Enquadrado numa equipa da categoria do Benfica, ao lado de um Rogério, de um Arsénio e do próprio Julinho, que mais tarde ou mais cedo viria a substituir no eixo do ataque benfiquista – avultavam os seus enormes recursos de jogador fino, inteligente e rematador.» Em trabalho de reportagem para o seu jornal, Rebelo da Silva escreveu então para Lisboa: «Houve aqui a novidade da apresentação de um novo recruta para o Benfica, um avançado-centro de apelido Águas, seco de corpo mas de grande habilidade, um jovem de dezanove anos que leva consigo a esperança de uma boa promessa para o futebol continental.»

 No terreno de jogo, o seu talento já dava que falar e começava a alimentar a prosa dos jornalistas e repórteres que acompanhavam a par e passo o fenómeno desportivo. Fora de campo, caíra nas boas graças de todos os companheiros de equipa, pela ingenuidade e pela simpatia natural e espontânea. Na revista Ídolos do Desporto, em Novembro de 1960, rezava assim a crónica: «Teve de suportar aquelas paródias que normalmente se fazem aos novatos – a cama que cai, a falsa chamada telefónica, a entrevista inventada – mas a tudo se prestava com o melhor sorriso, radiante por se ver no convívio do Rogério, do Arsénio, do Chico Ferreira e de outros que ainda ontem eram para ele uns ídolos distantes e inacessíveis e que via, agora, à sua volta, a mostrarem-lhe uma amizade e uma camaradagem que o traziam verdadeiramente deslumbrado e como que incrédulo de tudo aquilo ser mesmo verdade.» Não viajou para a metrópole com a equipa, pois ainda teve que resolver o assunto da licença militar.

Aterrou em Lisboa no dia 18 de Setembro de 1950, numa segunda-feira que nunca esqueceu. À chegada declarava estar satisfeitíssimo por ter chegado, e confessava: «Aqueles dez dias de alegre convívio com a rapaziada, por terras de Angola, deixaram-me uma saudade grande, e um desejo enorme de que estes dias passassem rapidamente.» E ao jornalista Rosa de Matos confidenciava: «Para um benfiquista que joga futebol, creio que a maior ambição é representar o seu clube». Mais. «Sinto-me animado de fé. Só assim poderei triunfar.»
Em 1951, num dos muitos artigos que escreveu e que ficaram ao longo de todos estes anos religiosamente guardados em pesados álbuns de recortes, relembrava: «Depois da morte da minha mãe a minha terra já não tinha para mim o ambiente feliz dos meus primeiros tempos. Havia a dor e a saudade no meu peito, que seriam a razão definitiva do salto que eu ia dar. E vim para Lisboa. A minha disposição era de estar aqui um ou dois anos – eu não me habituara à ideia de que podia fazer vida como jogador de futebol… O que depois se passou já toda a gente sabe. Cá estou…» Já nessa altura o discurso do meu pai era o de um homem movido por sentimentos fortes. E, logo na primeira entrevista concedida ao jornal A Bola, fez questão de deixar bem claros os seus propósitos: «Trago comigo a obrigação moral de não desiludir os meus amigos, todos quantos em mim confiam e os desportistas do Lobito. Procurarei vencer, por eles e por mim.» Mas «quando desembarcou em Lisboa, ninguém dava nada por ele, como avançado-centro.», escrevia Manuel Sequeira em 93.

 «Alto, fino, magro, como aguentaria o jogo dentro da área, numa altura em que o futebol era jogado de faca na liga? Poucos seriam capazes de adivinhar que aquele rapaz bem-parecido, com pinta de actor de cinema, seria, 12 anos mais tarde, o grande José Águas, um dos mais notáveis avançados de sempre do futebol português, reconhecido unanimemente como o melhor cabeceador que os nossos estádios conheceram até hoje. Viajei com ele dezenas de vezes, pelo Mundo, com o Benfica e com a Selecção Nacional. A equipa chegava aos aeroportos, José Águas, alto, sempre vestido com elegância, óculos escuros, era automaticamente referenciado, pelas estrangeiras, como o homem a abater...»* ___________ «Charme (in)discreto do avançado... alto, fino e magro», texto de Manuel Sequeira, publicado em 1993 no jornal A Bola.

30 Mar 2012

eu era um miúdo magro e fracalhote...

“Eu era um miúdo magro e fracalhote. Morava no Lobito, numa casa pequenina, airosa e bonita, junto à estação do caminho-de-ferro. Os apitos dos comboios foram o acompanhamento musical das lágrimas e das gargalhadas dos meus primeiros tempos de… jogador…
Por trás da minha casa havia a praia, o mundo em que eu havia de arranjar este sarilho de ser futebolista. Eu gostava muito da minha casa e de um pinheiro muito verde que eu plantara quando era muito mais miúdo ainda e viera há menos tempo de Luanda – a terra em que nasci.
Meu pai morrera.
Minha mãe criava-me com todo o carinho e eu palmilhava todos os dias o caminho da escola, sacola ao tiracolo. Era um aluno aplicado, gostava de estudar! Mas, claro, o recreio, as horas de chilreada, felizes e alegres daqueles tempos, eram a minha “perdição”. E a bola – a mágica bolinha – apareceu. Que tardes no areal da praia!
Viram-me mexer na borracha e… nada feito, porque a minha mãe achava-me menino fraco demais para aquelas andanças. Viria a começar tarde. Só aos 15 anos ela me deixou calçar pela primeira vez umas botas de futebol.
E eu apareci, de repente, sem mais aquelas, a jogar na equipa do Lusitano Sports Clube.
Mas, nessa altura, eu tinha arranjado outros amores…
Gostava imenso de estar na praia, com a minha irmã e mais três ou quatro raparigas, numa brincadeira de nunca mais acabar. Nasceram-me os primeiros e tímidos pêlos da cara…
Arrefecera o meu entusiasmo pela bola. E era um grande entusiasta do futebol, mas para ver jogar e só ver, simplesmente...
Com 17 anos comecei a trabalhar num escritório – o primeiro emprego da minha vida. O meu chefe era o vice-presidente do Lusitano Sports Clube e eu “devia” jogar todos os Domingos. Mas fizera-me “cábula” da bola e, dos dezasseis jogos do campeonato, não alinhava em mais de cinco ou seis. Às segundas-feiras, o meu chefe ralhava-me – eu faltara mais uma vez… Até que…
O Benfica visitou o Lobito!
Eu andava triste nessa altura e o sonho que desde muito novo acalentava – visitar Lisboa – fazia-me um “roi-roi” no peito. Joguei e… agradei.
Depois da morte da minha mãe a minha terra já não tinha para mim o ambiente feliz dos meus primeiros tempos. Havia a dor e a saudade no meu peito, que seriam a razão definitiva do salto que eu ia dar.
E vim para Lisboa.
A minha disposição era de estar aqui um ou dois anos – eu não me habituara à ideia de que podia fazer vida como jogador de futebol… O que depois se passou já toda a gente sabe. Cá estou…”

artigo assinado por José Águas e escrito em 1951